Muitas vezes, quando alguém recorda um momento bonito do passado, há quem interprete esse gesto como um sinal de que todas as mágoas, erros ou injustiças posteriores foram anulados. Mas isso é uma leitura simplista. A verdade é que a memória não funciona como uma borracha moral. Podemos revisitar o que foi bom sem, por isso, absolver o que veio depois.
Recordar um instante feliz pode
ser apenas isso: um reconhecimento honesto de que, apesar de tudo, houve
beleza, houve verdade, houve alegria. Não significa que a dor tenha
desaparecido, que a confiança tenha sido restaurada ou que as consequências
tenham deixado de existir. Significa apenas que a pessoa é capaz de olhar para
o passado com nuance, sem o reduzir a um único acontecimento.
A maturidade emocional manifesta‑se
precisamente nesta capacidade: distinguir o valor de um momento sem
reescrever a história inteira. A homenagem ao que foi bom é um gesto de
lucidez, não de amnésia. É reconhecer que a vida é feita de camadas, e que nem
a bondade inicial justifica o mal posterior, nem o mal posterior invalida
totalmente o que um dia foi verdadeiro.
Erros de análise acontecem. Para o evitar, o intelecto tem de estar á altura e o ego não pode ser maior que tudo o resto. A força de carácter, a existência de valores e princípios sólidos, quando existem, são uma boa ajuda também.

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